Se tem uma coisa na vida que me incomoda é o fato de haver, no mundo como um todo, uma certa cegueira social.
Já é lugar comum citar as mazelas da sociedade como atrocidades e julgar aqueles que nada fazem, dizendo que “somos todos responsáveis!”, que “o mundo é nosso, cuidemos dele!”.
O que não é nada corriqueiro: ver essas ações efetivadas por aqueles que julgam os demais.
Há mendigos em frente a minha casa. Seria fácil ignorá-los. Muitas vezes, até agradável. Há em mim, porém, desespero.
Olho para cada um e vejo um ser humano degradado. Um indivíduo carente e melancólico.
E me sinto mal ao pensar na vida de cada um deles. Em suas histórias, suas vontades, seu futuro projetado.
Tenho a consciência de que muitos deles nunca tiveram tais perspectivas, de que muitos mal têm capacidade motora e psicológica.
Gosto de pensar, porém, nos mendigos como atores de um drama.
E me sinto como se eu pudesse redigir, talvez, uma comédia e contratá-los por tempo indeterminado.
Não escrevo comédias. Não há ator algum. Somente drama.
E cegueira social. Constante.
Ouço suas vozes enquanto leio Mearsheimer.
Penso que talvez, um dia, tantos outros possam também ter a oportunidade de ler. E, quem sabe, escrever crônicas utópicas e desinteressantes.